OBRIGADA QUERIDOS !


Quinze mil pessoas. Esse foi o número de súditos presentes no grande templo chamado HSBC Arena para prestar homenagem e reverenciar a deusa AMY. Eu estava lá. Meio incrédula, devo confessar. Ás vezes eu pensava que tudo não deveria passar de um sonho, mas era real. Ao subir a enorme rampa que dava acesso ao estádio, meu coração bateu um pouco mais rápido e eu pude sentir o corpo reagindo ao efeito da adrenalina. Hoje posso dizer que se morrer amanhã morrerei feliz. Realizei um sonho.
Mas tenho que admitir que por muito pouco eu não vejo esse sonho se realizar. Hesitei alguns dias antes de comprar o ingresso temendo que ao invés de assistir a um espetáculo da maior cantora da atualidade eu seria testemunha de um show bizarro, com direito a overdose ao vivo e a cores. Nada disso aconteceu. Bem, pelo menos a parte da overdose. E sim, ela cantou. E muito. Dá até para perdoar os deslizes em algumas letras, mas com um coral de quinze mil vozes acompanhando não dava para perceber nenhuma falha.
Acho que foi o Nelson Motta quem disse que a maior revelação dos últimos dez anos se chama AMY WINEHOUSE. Concordo. Assim como também acho que a vida polêmica e as péssimas escolhas tenham contribuído para alimentar o mito. Mas ainda que fosse uma cantora de quarenta anos virgem e com vida ilibada ainda sim seria a deusa da música.
Sem dançarinos, sem se requebrar que nem uma louca, sem fazer piruetas ou strip-tease no palco, apenas munida de um microfone de pé e uma banda incrível, ela é de longe a melhor coisa que o show business produziu nos últimos anos. Pena a certeza que fica a cada dia mais forte de que AMY não vai ficar muito mais tempo entre nós. Diferentemente de outros roqueiros porra loucas -vide Stones, os ex-integrantes do Led Zeppelin, Ozzy, etc- que experimentaram de tudo e mais um pouco nesta vida, minha diva parece uma criatura mais frágil, prestes a se partir a qualquer momento. De trajetória meteórica, que a exemplo de Janis Joplin -só para citar uma representante do mesmo sexo- não conseguirá fazer parte do Sex, Drugs and Rock & Roll Survivors Club.
Houve uma época em que usar drogas era ato de rebeldia. Não dá para ser rebelde hoje, numa tempo em que quase tudo é permitido -para o bem e para o mal-, onde todas as barreiras já foram transpostas, onde dialogar com os pais somente é tarefa difícil dada a dificuldade dos mesmos de encarar os problemas de frente, ao contrário dos pais de antigamente que simplesmente eram mais repressores porque seus pais também haviam sido. Rebeldia tem a ver com romper obstáculos e o único obstáculo ainda presente na cabeça dos jovens talvez seja a tal da insegurança. Acho que a AMY deve se sentir a mais inferior das criaturas. Como lhe faltam auto-estima e amor-próprio! Coitada. Ela é de longe a mais incrível dentre todos os outros neste mar de mediocridade que assola o mundo dos espetáculos. Mas ela deve achar que não.
Bjs,
Ana
Nos cinco minutos finais de 2010 subi apressadamente as arquibancadas do Jockey Club acompanhada de uma multidão, e de lá de cima, num coro de centenas de vozes, contei os últimos dez segundos antes da explosão de fogos da Lagoa que iluminou o céu de poucas estrelas e ameaçado de uma chuva que só apareceu bem mais tarde e de forma tímida. Ainda tentei ligar para algumas pessoas para gritar "Feliz Ano Novo!" mas quem seria louco de atender o telefone justamente naquela hora. Além do mais se mal conseguia ouvir minha própria voz em meio aquela algazarra como seria possível ouvir outra pessoa do outro lado da linha? Na dúvida se alguém atendeu ou não eu gritei mesmo assim, já praticamente sem voz, e com os olhos úmidos pelas lágrimas que inevitavelmente eu derramei. Sou chorona mesmo, isso já faz parte do meu currículum. Esse foi meu segundo ano no Jockey Club acompanhada de uma galera mais do que animada e querida. Mas sem dúvida alguma esse foi o melhor fim de ano, quero dizer, o melhor início de ano que já tive, pois 2010 se despedia de mim levando consigo uma Ana completamente diferente dessa que vai "desfilar" no ano novo. 2010 marca o momento da virada da minha vida, quando finalmente eu me descobri muito além dessa figura que eu vejo refletida no espelho todos os dias. Eu me transformei ao longo dos doze meses do ano que acabou ontem, e hoje posso dizer com toda certeza que essa nova pessoa veio para ficar. Nunca me diverti tanto, dancei tanto, curti tanto como neste último Reveillon. E para quem dizia que não precisava beber para se divertir, tenho que admitir: um pilequinho não faz mal a ninguém e, de fato, ajuda "prá" caramba a soltar os "bichos" que tem dentro da gente. Mas aí vai um conselho de marinheira de primeira viagem: um caldinho de carne seca ou de lentinha com hortelã - hummmm - , mais dois ou três copos de refrigerante te ajudam a voltar para a sobriedade. Mas aí você já se divertiu "horrores" e a festa não corre o risco de perder a graça, mas também você não corre o risco de perder o caminho ou a chave de casa.
Feliz tudo novo!!!
Bjs,
Ana Cozzer
Seus olhinhos mal piscavam, incrédulos que estavam, diante da visão sublime daquele objeto mágico que ocupava seu pequeno grande quarto, onde bonecas sem cabeças desfrutavam do mesmo carinho daquelas que ainda estavam em perfeito estado, enquanto a velha bola dente-de-leite jazia meio abandonada debaixo da cama. Foi preciso um leve empurrão da mãe para que a menina de sete anos saísse daquele estado de quase hipnose e se aproximasse -ainda que meio hesitante- da linda bicicleta cor de rosa que acabara de ganhar. Seus dedinhos, então, acariciaram gentilmente a "magrela" linda, e que ainda por cima ostentava uma figura da Barbie em seu corpinho enxuto, não sem um certo receio de que tudo aquilo não passasse de um sonho, até que finalmente ela entre lágrimas e sorrisos descobriu que estava mais acordada que tudo, e que a linda bicicleta que durante meses ela suplicara aos pais que a dessem estava lá, de verdade.
Claro que que ela não deixaria de correr para os pais com os braços abertos e o sorriso mais agradecido do mundo, mas naquele instante a única idéia que lhe ocorrera foi a de "montar" em sua mais nova amiga e sair em disparada. Os pais naturalmente entenderiam aquele momento de pura emoção e a perdoariam por seu lapso, cientes de que, passada aquela euforia inicial, ela lhes diria obrigado um milhão de vezes. Faz parte. Afinal, eles também foram crianças. "Cuidado com os móveis, menina!" gritou a mãe, enquanto a pequena saía em disparada pela casa, um pequeno e humilde apartamento no centro da cidade.
Não demorou muito para que ela experimentasse a sensação de sair "voando" pela rua, enquanto guiava sua "bike" o mais veloz que podia por entre as outras crianças da vizinhança que produziam uma enorme algazarra. A rua era tranquila, carro só de vez em quando. As crianças daquela parte do bairro faziam dali seu "território", onde pelada, pique-esconde, amarelinha, skates e cachorros eram presenças constantes e obrigatórias. Mas bicicleta nova e ainda por cima, cor de rosa, apenas a sua.
Foram dias de intensa alegria e da mais pura emoção. Os pais estavam satisfeitos, apesar do grande sacrifício que tiveram de fazer para juntar a quantia necessária que a loja pedia. Mas tinha valido a pena. Se tinha. Única filha, ela era a alegria maior deles, o motivo verdadeiro que os guiava em busca de uma vida melhor e mais confortável, enfrentando as durezas da cidade grande, mas sem abandonar o sonho de poderem oferecer um futuro digno a sua "princesinha".
A menina não entendeu muito bem quando certo dia a mãe entrou desesperada no seu quarto, gritando palavras incompreesíveis "terremoto!" "tá desabando", toda coberta de um pó branco que parecia açúcar. Quando foi arrancada da cama, ainda de camisolinha, começou a chorar de medo. Ainda se lembra do último olhar que lançou para os seus brinquedos enquanto era arrastada para fora do quarto. A boneca favorita, uma velha Barbie Princesa, sem sapatos e despenteada, ainda repousava traquila no travesseiro. A bicicleta estava encostada na janela, onde sempre descansava depois de um dia agitado de trabalho. Depois tudo foi ficando escuro, até desaparecer por completo.
Naquele mesmo dia, ela ficaria sabendo que o prédio em que morava havia desmoronado. Que palavra estranha! Não entendeu muito bem, até que alguém falou que a sua casa tinha virado pó. E junto com ela tudo o que estava dentro. Graças à Deus eles terem escapado a tempo. Outras pessoas não tiveram a mesma sorte. Viu a mãe chorando abraçada ao marido. Viu outras pessoas gritando desesperadas enquanto andavam de um lado para outro. Olhou em volta em busca de algum dos amigos, mas tinha muita fumaça, e as pessoas estavam engraçadas como se estivessem pintadas de pó de giz. Então percebeu que ela também estava "pintada". Os pais a abraçaram, um abraço forte e emocionado. "Graças a Deus, estamos vivos" disse-lhe a mãe. "Mas perdemos tudo". Então a menina olhou para o prédio e decobriu horrorizada que não havia mais prédio.
No dia seguinte, ela insistiu que iria junto com a mãe e o pai no lugar qua antes havia sido o seu lar. Ou o que restara dele. A mãe tinha o rosto inchado de tanto chorar, passara a noite em claro enquanto ela dormia pesado nos braços do pai. Chamavam aquele lugar de abrigo, e parecia que todos os vizinhos do prédio estavam ali também. Quando chegaram no amontoado de pedras e areia em que se transformara seu apartamento os pais começaram a vasculhar o chão em busca de pertences. Outras pessoas também faziam. Ela então resolveu fazer o mesmo. Vasculhou por muitas horas, levantou pedras, caminhou sobre montes de areia, mas não conseguiu achar sua bicicleta. Chorou pela primeira vez naquelas últimas 24 horas. Finalmente havia entendido.
Ana Cozzer

Larissa Pedro Rosa, 8 anos, procurando sua bicileta nos escombros do prédio da
Rua Laura Araújo, na Cidade Nova, que desabou no dia 30/10 matando 4 pessoas. O prédio
nunca fora vistoriado pela Prefeitura. Assim como ele, existem dezenas de moradias
-a maioria no centro da cidade- em igual situação: velhas, caindo aos pedaços, sem
condições de serem habitadas e, no entanto, servindo de moradia para famílias.
Esta crônica é uma homenagem à Larissa.
Assisti ao primeiro "Tropa de Elite" na sua estréia na TV paga quase um ano atrás, simplesmente porque fiquei com receio da tão falada violência que -diziam- saltava da tela. Achei violento sim, mas totalmente coerente com a história narrada, mas no conforto do meu quarto, deitada entre almofadas e, acima de tudo, munida do controle remoto, foi mais fácil enfrentar a tropa dos "caveiras"comandada pelo, então, Capitão Nascimento. No cinema é diferente, a emoção é triplicada, aquele frio que percorre a espinha de repente se choca com a fisgada no estômago e -pronto! - quando você percebe já está suando frio e os dedos enterrados nos braços da poltrona. Cinema bom é assim: te arrebata, a ponto de fazer vc ter uma taquicardia ou chorar rios de lágrimas. Pois fiquei tão arrebatada pelo primeiro "Tropa...", que já me sentia preparada para enfrentar sua sequência no escurinho do cinema. Nào deu outra: saí do cinema de "quatro"! Como faz bem assistir uma obra bem escrita, bem dirigida e bem interpretada. Violento, cruel, verdadeiro, provocador. catártico. No final, aplausos. O ser humano adora uma figura heróica, um ser mitológico , acima do bem e do mal, que encarna nossos mais profundos valores morais e -mesmo que eles sejam defendidos de maneira meio torta - ainda sim, nos redime enviando para a cova todos aqueles que nos fazem mal de alguma forma. O que "Tropa..."faz de melhor é dar ao público brasileiro o seu herói nacional.
Todos os homens gostariam de ser um Capitào Nascimento. Todas as mulheres gostariam de ter um Capitão Nascimento.
Wagner Moura, nosso James Bond?

Bjs,
ANA
FIDEL CASTRO foi abduzido. Por quatro longos anos ele esteve prisioneiro dos homens de marte, experimentando na própria pele todo tipo de curiosidade (inclusive sexual) que os et´s nutrem por nós, terráqueos, e servindo de cobaia em diversos outros experimentos que até o deus marciano duvida. Após sua longa ausência, viajando por galáxias nunca antes visitadas, indo além da nossa imaginação, ele voltou. Mas enquanto esteve afastado, o mundo passou a lidar com seu irmão caçula, Raúl, que também usa farda militar, mas tem jeito bem menos austero e ditatorial. De ditadores o mundo já anda cheio há tempos, e quando pensávamos que Fidel não retornaria mais, ei-lo que surge alquebrado e com aparência doentia após quatro anos. Mas quem não voltaria assim após tanto tempo viajando pelo espaço sideral? Raúl ainda é o presidente de Cuba, mas Fidel está aí para provar que vaso ruim não quebra de jeito nenhum. Mas ele está diferente. Menos ditador? Creio que sim. Um homem que com seu histórico admite, e ainda mais para um jornalista americano (Jeffrey Goldberg, da Revista Atlantic Monthly), que o modelo econômico de Cuba não funciona mais, que o Irã deve abandonar o anti-semitismo, e - pasmem! - que ele se arrepende de suas próprias ações durante a Crise dos Mísseis, em 1962, quando aceitou que a antiga URSS instalasse ogivas nucleares na ilha e ainda por cima tentou convencer Moscou a atacar os EUA, é motivo para nos ajoelharmos e agradecermos pelo milagre. Algo está errado com Fidel? Pelo contrário: há algo de muito certo com ele!
Era 1984, ou seja, Mikhail Gorbachev ainda não era o Secretário Geral do Partido Comunista Russo, em resumo, o verdadeiro líder da, então, União Soviética. Minha melhor amiga na época, Soo-Yang, mostra uma carta de uma adolescente russa com quem ela passara a se corresponder, numa espécie de intercâmbio promovido pelo curso de inglês que ela fazia na época. Nunca me esquecerei daquela folha chamex com o cabeçalho no alto da página, o nome de minha amiga, e...algumas palavras, em inglês, que não haviam sido borradas (acho que cobertas soa melhor) de tinta preta por alguém do governo - nem imagino qual órgão - que simplesmente censurava tudo o que saía do país. Lembro de nossas caras de espanto quando abrimos o envelope e a tristeza daquela situação tão infeliz. Éramos - e somos- privilegiados por podermos usufruir de nossa liberdade (até de forma excessiva, diga-se), enquanto aquela jovem não podia sequer ter privacidade de enviar/receber uma carta. O órgão censor, a polícia soviética, KGB, whatever, quem quer que tenha aberto aquele envelope e censurado aquela carta - que provavelmente não revelava nada de importante - também muito certamente censurou a carta que minha amiga enviou. Mais de vinte e cinco anos depois, hoje aquela superpotência -de araque, diga-se- não existe mais, aquele Estado opressor foi há muito para o beleléu, e acredito que aquela jovem, se ainda estiver viva, não deve ter mais problemas para se corresponder. Ainda mais na era da internet!
Nessa época também, quando a MTV era apenas um canal de música, George Michael ainda era líder do Wham! e numa jogada inacreditável de marketing, sua banda fez um show na China, não essa China que conhecemos hoje, outra que talvez as pessoas nem se lembrem mais. Lembro do clipe da banda tocando "Everything She Wants", para um estádio lotado de criaturas loucas para balançar o esqueleto, mas o máximo que faziam, e tinham permissão para fazer, era bater palmas! Aqueles poucos que se arriscavam a dar uma dançadinha eram imediatamente contidos pela polícia e seus cassetetes. Acredite se quiser, mas isso realmente aconteceu. Hoje a China, ainda longe de ser uma democracia, tem aprendido a engolir a cultura ocidental em nome de um crescimento econômico avassalador. E ela não vai parar.
Se Castro mudou, se a URSS ruiu, se a China se abriu (!), o que falta para que notícias sobre apedrejamentos no Irã não cheguem mais aos nosso ouvidos tão cansados de barbaridades?
AC

Pertenço a chamada "Geração X", assim batizada por falta de nome melhor, e que veio no rastro da conhecida como "Baby Boomers", mas que ao contrário desta não alimentava perspectivas utópicas, sendo ainda mais cínica. Ser filho de pais separados deixou de ser exceção para se tornar regra, a palavra liberdade foi arrombando portas e derrubando barricadas numa tentativa de se tornar vernáculo onipresente no dicionário dos jovens da "geração perdida", quando os (excessivos) limites impostos pela censura começavam a ruir. No Brasil houve a transição (pacífica, díga-se) da ditatura para a democracia, e no início foi meio estranho se acostumar a votar para presidente por exemplo, tanto que fizemos uma tremenda M, mas em compensação já havíamos ajudado Michael Jackson a vender 40 milhões de Lps Thriller.
Minha geração, portanto, viu o nascimento e a consequente morte do aparelho de fax e do vídeo cassete; aceitou de bom grado a chegada do cd; esteve presente no momento de criação do celular; assistiu a queda do Muro de Berlim; torceu para que o projeto Guerra Nas Estrelas fosse apenas consequência do ego inflado de Darth Vader e não uma guerra mundial protagonizada por americanos e russos (anos mais tarde descobriríamos que o poderio da antiga URSS era tão fictício quanto o filme de George Luccas); nos emocionamos com "Et, o Extraterrestre" e até aqueles que zombavam de quem saía do cinema chorando devem ter se emocionado com o longa de Spielberg, ainda que em segredo. E é aí que quero chegar: filmes! Mais precisamente aqueles filmes que se tornaram icônicos para minha geração, tão bem retratada nas telas pelos trabalhos do saudoso John Hughes, como a "A garota de Rosa Schocking" e "Clube dos Cinco", para citar alguns.
Ele estreou oficialmente (ou seja, nos EUA) em 03 de julho de 1985, portanto ainda é jovem (25 anos), mas já não mais um adolescente. E se você tinha 15, 16 ou 17 anos quando ele aportou nas telas brasileiras deve se recordar muito bem da emoção na saída dos cinemas. Os meninos sonhavam em ter um De Lorean, as meninas em dar uns beijinhos no Marty Mcfly, ou melhor no Michael J. Fox. É óbvio que só posso estar falando de "De Volta Para o Futuro". Que teve mais duas sequências sensacionais, mas o primeiro é sempre o melhor, hehehehe.
Platoon me marcou e a muitos jovens da minha época de adolescente porque chegava aos cinemas brasileiros nos minutos finais da famigerada censura, um fantasma maldito que de vez em quando teima em voltar, mas que naquela época ainda ditava as regras dos espetáculos. Na minha segunda tentativa de assistí-lo (hoje ficou datado, ou talvez p/q eu descobriria depois que não era fã de Oliver Stone, e continuo não sendo) enfrentei uma fila enorme -e sempre tinha uma nos cinemas que o exibiam, o que deixava os jovens mais animados ainda para vê-lo- ao lado de algumas amigas munida de uma carteirinha de estudante falsa, ou melhor, de uma pessoa que não faço idéia até hoje de quem seja, mas que à época tinha mais de 18 anos, a idade permitida. Consegui assistir, e felicíssima torci para que o personagem do Charlie Sheen, ainda um garoto, sobrevivesse ao caos daquela guerra e, claro, chorei com a morte do William Dafoe, que fazia o tenente bonzinho. Os braços abertos e a morte em câmera lenta ainda hoje emocionam. No final me senti vingada por ter conseguido enganar o pessoal da bilheteria, pois em minha primeira tentativa nem acompanhada do meu pai, que só foi comigo após muita insitência, eu consegui entrar.

"A Hora do Espanto" me levou ao cinema pelo menos uma seis vezes, de tão apaixonada que eu estava por aquele vampiro sexy e bissexual vivido pelo gatão (na época) Chris Sarandon - para quem não sabe, o primeiro marido da Susan -. Tudo contribuiu para esse filme se tornar um sucesso, o que não aconteceu com seu sucessor que era uma porcaria. Mistura de terror e comédia, com ótimos efeitos especiais, que mesmo para a época eram muito bons, o Roddy McDowall que fazia um ator canastrão em fim de carreira...Well, um filme tão bom que terá um remake em 2011, e com Colin Farrell no papel de vampiro. Uuuuiiiii...

Eu já era apaixonada pelo Harrison Ford desde que o vira pela primeira vez em "Star Wars" no papel de Han Solo. Vê-lo como Indiana Jones, uma parceria dos meus amados Spielberg e Luccas, foi um presente. E pensar que a primeira opção dos dois para o papel título era o Tom Selleck, famosérrimo na ocasião por conta de seu papel do detetive Magnum, no seriado de mesmo nome e que era um tremendo sucesso na TV naqueles primeiros anos da década de 80. Ele não aceitou (o que deve ser motivo de arrependimento até hoje!) mas para nossa felicidade havia um Harrison Ford para dizer SIM. A música se tornou tão icônica quanto o personagem, que teve mais 3 sequels (uma pena a última ter perdido um pouco da magia) e parece que está longe de terminar se depender do trio Ford-Spielberg-Luccas. Amém!

Goonies, goonies! Esse filme com cara de aventura para criança (e é mesmo) é uma delícia que atravessa os tempos. Como não se divertir com a turminha de garotos (os Goonies), torcer pelo monstro Slot, rir das trapalhadas dos irmãos Fratelli (que viviam soltando puns) e comemorar o final. Corey Feldman ainda era um garoto normal e não brincava no rancho do MJ, mas o futuro lhe reservaria apenas o ostracismo.

Michelle Pfeiffer já despontava como uma das mulheres mais lindas do cinema. Matthew Broderick ainda estrelaria o filme que o marcaria para sempre (Curtindo a Vida...). E Hutger Hauer de negro como um cavaleiro medieval era simplesmente arrebatador para uma jovem de 16 anos. Podem se passar cem anos, "Ladyhawke" será sempre um dos meus favoritos.

Ele pode estar hoje completamente à deriva do bom senso e da sanidade, mas já foi uma astro de primeira grandeza e um dos homens mais lindos do cinema. A visão de seu derriére numa das primeiras cenas do filme "Maquina Mortífera" de 1987 até hoje me deixa suada. Esse filme deu uma renovada nos longas policiais e redefiniu a forma como uma boa trama de ação pode ser narrada. Sua dupla com Danny Glover será sempre uma das melhores coisas que o cinema de ação já produziu. Em 1989 teve uma segunda parte ainda melhor, mas daí em diante perdeu o fôlego e descambou para a comédia. A trilha sonora até hoje é marcante. E aquele cabelo, o que era aquilo? Só Mel Gibson para usá-lo e ficar lindo.

Na linha filme de ação, um que chamou bastante atenção e colheu muitos fãs ao longo dos anos foi "Duro de Matar". Bruce Willis já havia conquistado popularidade com o seriado "A Gata e o Rato" que curiosamente havia sido criado para Cybill Sheperd, já uma atriz famosa na telinha. Ele deveria ser apenas seu coadjuvante mas acabou se tornando tão estrela quanto a loira, que não fazia questão de esconder sua antipatia por ele. Peninha dela, quando o seriado terminou Bruce estrelou este petardo. E virou astro definitivamente. Curiosidade: Alexander Godunov, um ex-bailarino russo que aproveitou a oportunidade para pediar asilo nos EUA quando em turnê pela America, faz um dos terroristas.

O filme é de baixo orçamento e claramente meio brega, a música-tema gruda nos ouvidos como chiclete, mas o galã dançava como ninguém. "Dirty Dancing, Ritmo Quente" tem motivos de sobra para ficar na memória da gente, é só escolher...

Semana passada fui com meu sobrinho de 14 anos assistir a estréia de um velho clássico. Estranho? Não, quando se trata do remake de "Karatê Kid". Atire o primeiro cubo mágico quem não prendeu a respiração na cena final desse clássico absoluto dos anos 80, quando Daniel San, perna levantada e braços imitando asas, dá um golpe arrasador no loirinho malvado. As continuações foram fraquinhas e nada comparáveis com o primeiro. Pat Morita já faleceu, Ralph Macchio já é um senhor, portanto a honra de representar um jovem que aprende os verdadeiros valores das artes marciais coube ao lindinho filho do Will Smith, Jayden, que na verdade luta kung fu, mas o que importa são as intenções. Este novo " Karatê Kid" já nasceu clássico para a geração do meu sobrinho, que por sinal adorou.

Ele é simplesmente considerado o melhor filme B de todos os tempos. Sua continução, ao contrário, já nasceu como blockbuster (orçamento de U$ 100 mi) e música-tema assinada por Guns & Roses, mas foi o B que marcou minha geração pois trazia pela primeira vez a saga de James Cameron sobre a guerra dos homens contras as máquinas, um enredo prá lá de bem bolado mas que perdeu um pouco da força em sua última parte, estrelada por Sam Worthinton e Christian Bale. "O Exterminador do Futuro" foi simplesmente um soco no estômago, na cara, e no resto do corpo de quem teve a honra de vê-lo no cinema. A heroína (e como Cameron adora as heroínas) estava em seu estágio embrionário. Sarah Connor era uma mulher frágil que se descobre mais forte do que se supunha ser. Em 1991 ela surgiria arrebatadora, furiosa, enlouquecida mas ainda uma heroína em "Terminator II, The Judgment Day".

Ele era um garoto enganador e cínico para a irmã chata, mas líder e super popular na escola, que resolve matar aula e levar a namorada e o melhor amigo para passear de Ferrari na cidade. Matthew Broderick não podia imaginar que estrelaria o filme da sua vida (e das nossas!). "Curtindo a Vida Adoidado" ainda por cima conta com um sucesso dos Beatles para não deixar dúvidas:
Well, shake it up baby now (Shake it up baby)
Twist and shout (Twist and shout)
Come on, come on, come, come on baby now (Come on baby)
Come on and work it on out (Work it on out)
E finalmente não poderia terminar sem citar "O Império Contra-Ataca", sem dúvida o melhor das duas trilogias. Mark Hammil já havia sofrido o grave acidente que eclipsaria um pouco sua beleza mas o momento mais triste sem dúvida foi o congelamento de Han Solo. Saí do cinema às lágrimas.
"Os Aventureiros do Bairro Proibido"; "O Grande Dragão Branco"; "Garotos Perdidos"; a nudez de Brooky Shields em " A Lagoa Azul"; "Um Tira da Pesada"; Porky´s...bons tempos!
ANA COZZER
É certo que nunca fui ao cinema sem saber o que vou assistir. Como sou apaixonada por cinema leio tudo a respeito de lançamentos, novidades, estréias, etc...Por isso, de certa forma, foi mais fácil entender a trama de "A origem" ( Inception" no original). Também contribuiu sobremaneira a paixão que nutro por Christopher Nolan desde que assisti a"Amnésia" e, claro, desde que ele adotou meu super-herói favorito e o elevou a décima potência. "Batman Begins" e "O Cavaleiro das Trevas são simplesmente obras de arte. Munida de muitas informações fui conferir "A Origem" bastante empolgada, e saí do cinema extasiada. Sugiro a todos provarem dessa experiência e constatar que -felizmente- ainda se encontram cabeças pensantes em Hollywood. Leonardo Di Caprio que tem amadurecido a cada filme, deixando bem para trás aquela cara de garotinho chato, está ótimo. A maravilhosa Marrillon Coutillard é isso mesmo: maravilhosa. E uma boa parte do elenco dos filmes do Homem-morcego tb está lá: Michael Caine, Ken Watanabe, e Cillian Murphy. Como a trilha sonora é assinada por Hanz Zimmer tem-se a impressão de que,a qualquer momento, veremos uma capa negra sobrevoando os arranha-céus de Gotham City. Mas até isso torna o filme saboroso. Amei.
Em compensação. o que foi aquilo: "Salt" tem a seu favor aquela mulher incrível, chamada Angelina Jolie. Mas o roteiro é ruinzinho demais. Uma tentativa -fracassada- de copiar a trilogia Bourne. Não deu.
Ana Cozzer





Rio, janeiro de 1985. Estava de férias na cidade (nessa época, e até meus 26 anos, morava em Vitória) e estava louca para conseguir um ingresso que fosse para o festival que aconteceria dias depois. Claro que tudo precisava ser feito sem que minha mãe soubesse, porque afinal, "tava" rolando na imprensa uma profecia que Nostradamus teria feito acerca de uma catástrofe na América Latina, justamente naquele ano. Claro que muita gente não ligou para isso, eu inclusive, mas é óbvio que tantas outras (as apocalípticas de sempre) davam como certo que o negócio iria realmente acontecer, minha mãe entre elas. Ainda me lembro dela falando uns dias antes da viagem que não queria de jeito nenhum que eu fosse ao Rock In Rio, e ir ao festival era tudo o que eu mais queria. Imagine, o primeiro festival daquela magnitude no Brasil, aqui no Rio, justamente durante minhas férias! Tinha quinze para dezesseis anos, e qual não foi minha alegria ao fazer um telefonema de um orelhão para casa e anunciar a plenos pulmões que eu estava justamente lá, ôôô...ôôô..Rock in Rio...minha mãe quase enfartou mas eu repetiria a dose mais outras duas vezes, em 1991 e 2001. Nunca deixei de ligar p/ ela - é como se houvesse se transformado num ritual - e ela desesperada do outro lado da linha. Na última edição eu estava com 31 anos, já morava no Rio, e minha mãe também, mas ela sempre foi dada a um teatro...coisas de Laurinha. Grandes lembranças...Que ótimo saber que finalmente haverá outra edição no Brasil. E que os ingressos não terão um preço extorsivo como costumam ter em shows por aqui. Óbvio que estarei lá, se Deus quiser, e ele há de querer e, é claro, eu não poderei deixar de dar um certo telefonema...







Vários momentos do festival: Freddy Mercury (alto); e na sequência: a logo de 1985;
a lama que foi presença marcante na primeira edição; Prince, quando ainda se chamava assim; geral do Maracanã, na segunda edição;
Whitesneak em 1985; Axel ainda saradinho no Maracanã c/ Slash, quando ainda se davam; e a saudosa Cássia em 2001.
Ana
"RECORDAR É VIVER" é o nome da peça que está em cartaz no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) na R. Primeiro de Março, no Centro. No elenco, a maravilhosa Suely Franco e o monstro sagrado Sérgio Britto. Um texto atemporal, ótimos diálogos, um elenco coadjuvante excelente e a gente ainda desfruta do ambiente requintadíssimo do Centro Cultural, que é um luxo só. E o melhor, tudo por apenas R$10,00. Incrível! Teatro ainda é um lazer caro, que os artistas justificam pela dificuldade em se conseguir patrocínio, a famigerada da meia-entrada...enfim, não dá para pagar R$70,00 ou R$80,00 para curtir ainda que um ótimo espetáculo, porque simplesmente é muito caro, temos que admitir. Mas quando surge uma oportunidade como essa, de ver um cast maravilhoso e um texto idem, não dá para perder. Amo morar no Rio! Aproveitei para conferir uma exposição divertidíssima do Ziraldo sobre Super-Heróis.

Bjs,
Ana Cozzer

Semana macabra essa que se encerrou. Quando ainda estávamos lamentando a morte estúpida do menino que foi atingido em sala de aula por um tiro de fuzil, durante confronto entre PMs e traficantes, vem a notícia do atropelamento do filho caçula da atriz Cissa Guimarães. Fiquei muito chateada aqueles dias que se seguiram ao acontecimento, e tenho acompanhado com grande interesse o desfecho dessa história, que se Deus quiser, será justo. Claro que esse interesse também se dá motivado pelo fato de a vítima (um menino lindo, na flor da idade), ser filho de uma artriz da TV Globo, querida há muitas décadas do público que vê tetelvisão. Não tem jeito, por mais que achemos que todos tem o direito de merecer o mesmo espaço na mídia, sempre haverá aquele beneficiado por esse ou aquele motivo. Não quero diminuir a importância do assunto, mas acredito, e espero, que outras vítimas, famosas e não famosas, também sejam lembradas e em seu nome se faça justiça. Alguns babacas escreveram comentários raivosos na rede menosprezando o fato de que o atropelamento foi um crime para falar mal da Rede Globo e desfiar toda aquela baboseira de gente que não tem o que fazer. O que está em jogo é muito maior do que tudo isso.
Perdi um primo de 20 anos num acidente de carro e sei o quanto isso pode afetar uma família. Faz oito anos que uma nuvem negra muito grande e densa pairou sobre nós tranformando nossas vidas de ponta cabeça, ameaçando não mais ir embora. Mas o tempo - este santo remédio, que todos os males alivia - soube nos mostrar que havia uma esperança, ainda que tão pequena quanto uma bóia flutuando no meio do oceano, mas foi nessa bóia que os pais do meu primo e sua irmã se agarraram e sobreviveram. O motorista irresponsável, que numa noite fatídica de agosto de 2002 dilacerou três famílias ainda se encontra foragido, junto com o pai, em algum lugar da América Latina, vivendo no anonimato e tendo (espero) que viver com a lembrança daquela noite maldita. Ainda não se fez justiça, mas um dia ela será feita.
Alguns jovens escolhem um túnel interditado para andar de skate. Outros jovens escolhem esse mesmo túnel para fazer pega. Eis a receita da desgraça. E no final, os pais se debruçam sobre um caixão, enquanto outro paga propina a dois PMs bandidos para livrar a cara do filho.
Jovens se acham invencíveis, acima do bem e do mal. E na maioria das vezes não o fazem por maldade, não. E sim por que são isso mesmo: jovens. Tudo o que fazem é consequência de seu excesso de inconseqûencia, ou imaturidade, se preferir. Meu primo podia ter optado por não entrar no carro do amigo que, ele sabia, corria muito. Mas o fez por amizade e confiança de que nada de ruim aconteceria. A culpa é dele? Claro que não! Rafael Mascarenhas também não fazia nada que prejudicasse ou ferisse alguém, a não ser ele mesmo - o túnel estava interditado para obras - nem pensou que traria tristeza para sua família caso algo de inesperado ocorresse.
Rafael Bussamra por sua vez, o homem de 25 anos e que a imprensa insiste em chamar de jovem, estatura e físico de jogador de hóckey, percebeu a burrada que tinha feito e decidiu tomar a única atitude que achava mais acertada: ligou para o papai, que por sua vez nem sequer o orientou a prestar socorro a vítima, mas correu para negociar a grana que livraria seu filhinho do flagrante. Esperto esse tal de Roberto Bussamra. Combinou encontro com os PMs bandidos, encomendou o conserto do carro - tudo em questão de horas - certamente pensando que a vítima se tratava de algum morador de rua ou da Rocinha. Enfim, gente sem importância. Mas havia uma placa no meio do caminho, ou melhor, esquecida no local do acidente, e que com o choque se desprendeu do veículo, permitindo que se identificasse o proprietário do carro assassino. Ao constatar através do telefonema da esposa que se tratava de uma vítima com pedigree, o sr. Roberto compreendeu que a encrenca era muito maior do que se pensava. E foi então que o algoz resolveu posar de vítima. Os PMs corruptos exigiram 10 mil reais. Levaram mil de adiantamento, mas a família Bussamra segue se dizendo coagida pela polícia. Acabo de ler que estão deixando a cidade, indo para destino conhecido apenas de seu advogado para evitar represálias, dando um tempo da cidade e das notícias, tentando sair de cena.
Essa história me fez lembrar da empregada doméstica que em 2007 foi espancada por quatro jovens de classe média alta, que num momento de tédio resolveram usar a pobre mulher como saco de pancadas, enquanto esta esperava um ônibus que a levaria ao médico para uma consulta. Confundida com uma prostituta, a desculpa que os meninos alegaram para justificar o injustificável, como se prostituta merecesse esse castigo. Ameaçada pelo pai de um dos agressores dentro da delegacia. Humilhada publicamente. O Sr. Ludovico Ramalho Bruno, pai de um dos acusados, gente da estirpe do sr. Roberto Bussamra, em defesa de sua criança pediu que a prisão não se desse na cadeia "onde traficantes que trocam tiros todos os dias com a polícia estariam presos". Não seriam uma boa influência para seu menino que "errou mas que não merece um castigo tão grande", afinal "mulher é mais frágil, fica roxa à toa".
Senhores Roberto Bussamra e Ludovico Bruno, meu primo foi um filho maravilhoso, um irmão muito amado, um neto querido e um amigo inesquecível para dezenas de jovens. Teve uma educação exemplar, amor, carinho, e acima de tudo, bons exemplos a seguir. Ele deixou saudades, assim como tenho certeza, o Rafael Mascarenhas e o Wesley Gilbert também deixarão.
Quanto aos seus filhos, Rafel Bussamra e Rubens Arruda, eles são a prova do quanto uma educação calcada no egoísmo, na mesquinhez, na corrupção pode ser nociva para a sociedade.
Que a nossa Justiça possa enfim perceber que um carro guiado por um inconsequente é tão letal quanto uma arma de fogo. Que diferença faz pisar no acelerador e puxar um gatilho?
Bjs,
ANA COZZER
Eu devia ter lá meus 10/11 anos, sei lá, talvez mais ou talvez menos. Estava começando a mudar o corpo, adquirindo formas e curvas, atravessando a fronteira que separa as crianças dos adolescentes. Brincava com os meninos e com a outra única garota da rua, mas que nem sempre podia acompanhar meu ritmo - a mãe dela sempre dava umas tarefas domésticas para ela, coisa que a minha não fazia, pois ela preferia me ver longe enquanto trabalhava nos deveres da casa - portanto eu era mais moleque do que menina. Mas o corpo em mutação já começa a chamar a atenção, senão dos meninos pelo menos dos pais deles. O pai em questão era pai de três dos garotos da rua, e desde rapaz levava fama de "galinha", para desespero de sua esposa que frequentemente era traída. Mas era o "tio" bonzinho que brincava de forma carinhosa, de preferência longe das vistas dos outros adultos. O problema de amadurecermos em corpo muito cedo é que NUNCA, mas NUNCA mesmo somos beneficiados pelo amadurecimento que mais importa: a cabeça da gente ainda é a cabeça de uma criança, mesmo que essa cabeça venha acompanhada de um corpo de mulher. A gente desconfia - eu pelo menos desconfiava - que havia algo errado naquelas "brincadeiras", mas não tinha muita certeza de que aquelas escorregadelas de mão pelos meus seios eram propositais. Ah que droga essa falta de malícia! Até que passei a evitar. Na dúvida, sei lá...
Esse mesmo pai uma vez ameaçou bater num vendedor de picolé, um senhor de idade já bem avançada, que nós chamávamos de "amiguinho" e que ia sempre a nossa rua. Para nós, a garotada, ele não passava de um velho simpático que vendia um picolé ótimo e ainda por cima fazia fiado. Para o adulto que gostava de bolinar menininhas ele na verdade não passava de um velho pedófilo que tentava seduzir o mais novo dos seus filhos, atraindo-o com doces (que ele também vendia) e historinhas da carochinha. Se é verdade que o "amiguinho" tentou mesmo fazer alguma coisa errada, eu não sei. Nunca vimos ou ouvimos nada, tínhamos como verdade apenas a palavra daquele pai zeloso. E nunca mais saboreamos aquele picolé feito sei lá como e por quem, mas que a gente amava.
Pedofilia é algo nojento, repulsivo, e que a exemplo do estupro não deve ter perdão. É doença. Mas ao contrário de outras doenças essas não tem cura. Tranquem os pedófilos e estupradores em celas asquerosas e joguem fora a chave.
Mas se engana - ou se deixa enganar - quem pensa que pedofilia é exclusividade dos tempos atuais. Na Roma antiga já se praticava tal ato imundo, mas como acontece hoje sempre por debaixo dos panos, por que também naquela época era considerada uma transgressão.
A sociedade atual é pedófila? Isso na visão de quem? De um membro de uma instituição que tem uma história manchada pelo sangue de milhares, talvez milhões de pessoas que ela condenou a morte, das formas mais cruéis possíveis e que convive com esse fantasma chamado pedofilia entre seus portões desde sempre, mas que nunca teve a coragem de combater? Essa hisória de pederastia dentro da Igreja Católica é tão antiga que já se tornou até folclore, sendo tema de filmes dramáticos e cômicos (Trovão Tropical), livros e até Grafic Novells. As pessoas simplesmente fingem que isso não existe, como costumam fazer com tudo aquilo que incomoda seu status quo. Graças a Deus estamos vivendo um tempo em que assuntos constragedores como esse, que eram tratados como segredo de estado, vêem à tona, tomam as ruas, ganham corpo, se tornam tema de fóruns de debate, dão a cara à tapa. Precisamos parar com a hipocrisia que nos cerca e que fez - e faz - tanto mal a sociedade, acolhendo assassinos e corruptos, protejendo pedófilos e estupradores, acobertando criminosos e aplaudindo quem deveria estar pagando pelos seus pecados. A Igreja não vai acabar, mas será forçada a mudar seus velhos paradigmas se quiser sobreviver mais dois milênios, além de fazer uma bela faxina na própria casa antes de apontar seu dedo para o resto do mundo.
Bjs,
Ana Cozzer
Lembro do dia em que Pipoca morreu. Ele ficou doente de uma hora para outra, perdendo completamente a força das patas traseiras, até tombar completamente, com energia apenas para grunhir bem baixinho, os olhos perdendo a cor (eram azuis), ficando opacos até se fecharem de vez. Em tempo: Pipoca era o nosso cachorro. Aliás, foi nosso último cachorro. Antes dele houve a Jelly e, antes dela, o Wiskhy. Também havia a Lessy - mãe da Jelly - mas essa ficava no trabalho do meu pai, uma pastora alemã bem brava, mas que adorava a gente. Pipoca era um vira-lata puro-sangue. Branco, dái o nome Pipoca, of course. Tinha o rabo peludo e quando chegou lá em casa, ainda filhote, era um pouco maior que um Blackberry. O menino que o levou garantiu à minha mãe que ele não cresceria muito, algo como um poodle. Mamãe que, desconfio, nem sabia como era um poodle, acreditou e acabou ficando com aquela coisinha fofinha e branquinha. Pipoca cresceu, cresceu, cresceu...era um meninão, num corpo de cachorro. A alegria da casa. Mas infelizmente, acho que com uns quatro ou cinco anos, ele se foi. Tão rápido que não tivemos nem tempo de descobrir a causa da morte. Meu irmão mais novo enterrou-o no quintal de um vizinho, bem debaixo do pé de carambola. Improvisou uma cruz e ali deixamos nosso cão descansando em paz. Chorei muito aquela tarde, deitada na cama. Todos sofremos, até minha mãe, que gosta de se dizer forte e inabalável. Era o companheiro dela, afinal. Naquela época não tínhamos grana para levar no veterinário, então cuidávamos da melhor maneira que nosso orçamento permitia. Ele era vacinado, bem alimentado (a melhor comida caseira), tomava banho, corria, brincava. Não era um cachorro de madame, era um cachorro de gente pobre mesmo, mas era bem tratado. Como aliás todos os nossos animais foram.
Bem antes do Pipoca, numa era bemmmm distante, houve o Ruivo, um vira-lata queridíssimo pela garotada da rua, cujo pelo era avermelhado -daí o nome- e que logo se tornou o nosso mascote. Todo mundo da rua alimentava o Ruivo, cuidava dele, e ele cuidava de nós, não deixando que nenhum estranho invadisse o nosso território, a Rua Máximo Borgo. Ele era pequeno, menor que o Pipoca, mas era um leão. Ainda lembro dele sentadinho no murinho da rua olhando os meninos jogarem pelada. Não pertencia a ninguém em particular, e era de todos ao mesmo tempo. Um dia minha mãe chegou em casa com a triste notícia de que a carrocinha o tinha levado. Nem seus argumentos com o maldito funcionário do canil municipal surtiu efeito: cachorro sem coleira, era cachorro sem dono. E cachorro sem dono ia para o canil municipal. Nunca mais vimos o Ruivo. Ás vezes bate uma saudade dele. Ou quem sabe, uma saudade dos meus tempos de criança.
Animais lá em casa eram uma constante. Para nossa alegria e desespero de minha mãe, na verdade a pessoa encarregada de cuidar deles. Gatos, periquitos, tartaruga, papagaio, cachorro como já disse, até um filhote de gavião que aquele meu irmão resgatou no meio do mato, ferido e sem família. Ele ficou lá em casa alguns dias até o Ibama (ou teria sido o Corpo de Bombeiros? Não, acho que foi o Zoológico, ah, sei lá...) ir lá em casa para buscá-lo.
Os meus preferidos foram e serão sempre os gatos. Amo-os! Pretos, então...Prá mim não existe animal mais encantador, charmoso, misterioso, elegante, único! Adoro gatos, e tudo o que dizem de ruim a respeito deles é a mais pura bobagem. Individualistas? São sim, e daí? Desde quando isso é problema? Hóspedes na nossa casa foram o Zeferino, a Gilda, e o Mingau, filho da Gilda, que pariu atrás da nossa geladeira -para horror da mamãe- e o qual eu dei uma pequena ajudinha no parto, diga-se. Gilda teve várias ninhadas, tantas que foram esgotando as forças da coitada. Na verdade ela pertencera a um vizinho que resolveu se mudar de mala e cuia para a India, e como a cozinha lá de casa estava sempre exalando cheiros deliciosos, prá lá ela se mudou. Era linda, imponente, castanha com olhos verdes, peluda. Se fosse humana seria uma daquelas vamps dos filmes noir de antigamente. Um escândalo de sexy,a começar pelo nome, rsrsrsrs. Já doente, ela saiu de casa de fininho e, apesar dos gritos insistentes de minha mãe, ela não voltou. Se escondeu no quintal da casa ao lado para morrer sozinha. Como uma Garbo felina, ela talvez tivesse deixado um bilhete: "leave me alone" . Elegante até no final. Como somente os gatos podem ser.
Mingau - que não era tão branco quanto o nome sugere - ficou conosco mais tempo, até minha mãe se mudar para o Rio e ele começar a ficar cada vez menos em casa. Era até engraçado ir dormir à noite com os miados desafiadores dele para outro gato - e na minha rua, tinha gato prá cacete! Na verdade era um saco, parecia uma ladainha. Logo em seguida os miados paravam e aí era só barulho de folhas, terra rolando, BUM!...SOC!...POW! Quantas vezes ele chegava em casa no dia seguinte todo arrebentado, coitado. Mas naquela mesma noite lá estava ele de novo: BUM! SOC! POW! Quando também vim para o Rio ele ficou meio deslocado lá em casa (meu irmão ainda morava lá) mas já não devia ser a mesma coisa para ele. Mingau era um espírito livre. De porco também, mas livre. Aí ele resolveu ir embora, conhecer outras turmas. Deve ter morrido, com certeza, encrenqueiro do jeito que era. Saudades daquele safado.
Saudades de um tempo que não volta mais.
Beijos,
Ana Cozzer
P.S: Já ia me esquecendo: fiz de tudo para ter uma jibóia, mas é claro que minha mãe não deixou. Teria sido o máximo!

Após um longo e tenebroso verão...
Somos felizes, nós o invejado povo deste lindo país localizado ao sul do Equador. E digo isso sem qualquer sentimento de culpa, até p/q não há que se ter culpa simplesmente por carregarmos em nosso DNA os genes da alegria de viver, do entusiasmo, da despreocupação.
2010 começou meio sinistro, admito, justo este, o ano das grandes esperanças - em que a maioria de nós está apostando alto todas as suas fichas. As primeiras semanas deixaram meio que a desejar, jogando no lixo todas as nossas expectativas diante de tantas catástrofes acontecendo em nosso próprio quintal, além é claro da destruição de um país já castigado por sua própria história, o Haiti. Acompanhamos cada salvamento das vítimas do terremoto com a mesma emoção de um capítulo final de novela das oito. Vimos imagens emocionantes dignas de um blockbuster, pessoas saindo dos escombros após dias soterradas e, mesmo assim c/ força para sorrir e, em alguns casos, até cantar de felicidade. Choramos a morte dos militares brasileiros e principalmente de d. Zilda Arns.
Passada toda aquela comoção, quando nos unimos em prol das vítimas de lá e de cá, voltamos à nossa realidade. Atravessamos o verão mais quente dos últimos cinquenta anos (e não me digam que isso é normal, p/q não é!), curtimos o Carnaval com o Rio estabelecendo de vez a presença dos blocos de rua - até eu, imaginem, saí na Banda de Ipanema! Enfim, deixamos p/ trás q/q traço de tristeza e estamos vivendo nossas vidas, felizes e relaxados. Uma rápida olhadela no jornal e ficamos sabendo que o governador sem-vergonha do DF finalmente foi em cana; que a corrida presidencial está como sempre esteve: insípida e inodora; que o calor continua a castigar a maioria dos estados brasileiros (hj por acaso está chovendo, ufa!); a tão aguardada temporada de (re) estréias dos seriados americanos começou na tv paga; Avatar continua arrastando multidões aos cinemas...
Na nossa alegria infinita, não nos demos conta que no início do ano morreu o milésimo soldado americano no Afeganistão, desde o início da investida dos EUA contra o terrorismo (problema deles, não é? o 11 de setembro tb foi...). Também ignoramos ou preferimos fazer vista grossa ao fato de que o nosso presidente, em sua ânsia de ver o Brasil como membro permanente do Cons. de Segurança da ONU, prefere brindar com o inimigo, nações notoriamente conhecidas por ignorar os direitos humanos: Cuba, Cor. do Norte, Sudão, Irã. Tudo em troca de um voto.
Em meados do ano passado, por ocasião das eleições presidenciais no Irã, o mundo assistiu a uma revolta civil, que levou milhares de pessoas às ruas em protesto contra o resultado fraudulento das urnas. Uma batalha que o senhor Lula comparou a uma
"guerra entre torcidas organizadas de times rivais". A morte em primeira mão, via You Tube, da jovem Neda ficou registrada em nossas retinas naqueles dias que se seguiram ao embate. Mártir absoluta daquela tentativa fracassada de revolução democrática, a bela estudante foi tema principal das rodas sociais por dias a fim, até ser finalmente enterrada quando desapareceu de nossas memórias. Nos esquecemos muito rápido.
Permitimos que o mal prevaleça p/q simplesmente dá trabalho pensar nele.
Nesta semana um prisioneiro político de Cuba morreu após 85 dias de greve de fome em protesto contra os mau tratos na prisão. No mesmo dia o presidente Lula estava em Cuba para visitar seu "cumpanheiro", Fidel Castro.
Tb nesta semana o Irã está fuzilando as pessoas detidas na "guerra de torcidas". Inimigos do Islã. Tomara que isso não vire moda por aqui.
Crianças pedindo esmola nos sinais, aldeias indígenas abandonadas pelo governo, balas perdidas, crescimento das populações de rua, injustiças sendo cometidas pela Justiça brasileira, transporte público precário...
Permitimos que todos esses problemas continuem a existir p/q simplesmente dá trabalho pensar neles.
Daqui a pouco começa o Brasileirão, haverá um novo BBB, mais uma novela estreando no horário nobre, Madonna de volta ao Rio, Copa do Mundo...
Somos felizes.
Ana Cozzer


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BRASIL, Sudeste, Mulher, de 36 a 45 anos, Portuguese, English